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Você fica mais feliz no verão? Estação do ano afeta nosso humor

Publicado no portal UOL/Viva Bem, 01.01.22 Por: Marcelo Testoni

Para compreender como a estação mais quente do ano nos influencia, não dá para deixar de falar antes do inverno. Pois se no verão ficaríamos mais sociáveis e dispostos, pressupõe-se que no inverno ocorreria o contrário. Bom, de fato, isso é verdade. O frio não apenas imobiliza, endurece o físico como, a longo prazo, o emocional também. Por isso, pessoas que vivem sob climas gélidos, nublados e chuvosos a maior parte do ano estão sujeitas a serem mais "frias".


Segundo peritos em comportamento humano, o ambiente é um fator que se soma a outros para determinar a personalidade. Quem mora no Hemisfério Norte, em países como Canadá, Inglaterra, Noruega, não expõe tanto o corpo ao tempo, que recebe menos radiação solar, e por conta de nevascas, dias mais curtos, riscos de acidentes em vias congeladas, fechamento de estabelecimentos, enfrenta maiores dificuldades para sair de casa, se socializar e exercitar.


O oposto da realidade dos brasileiros, por exemplo. Por aqui temos sol praticamente o ano inteiro, mesmo no inverno, que em nada se compara ao da América do Norte e Europa. Fora que temos um litoral com mais de 7 mil quilômetros de extensão em linha contínua, onde se concentram ou estão muito próximas as capitais mais populosas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador. Por isso, os estrangeiros quando vêm para cá falam tanto do nosso jeito acalorado.


Sem cair em estereótipos


Clima quente é extremamente benéfico para o humor. "Por aqui, diferentemente dos países nórdicos, gelados, cinzentos e cuja taxa de suicídio é maior, as pessoas são mais animadas, expansivas e sociáveis. Tem a ver com se exporem ao sol, que produz e sintetiza substâncias para o físico e que afetam o cérebro", informa Yuri Busin, psicólogo, doutor em neurociência cognitiva e diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio), em São Paulo.


Acima dos 25°C, a expressão é mais solta e, à medida que os termômetros se elevam, avisam que é hora de aproveitar os dias longos e tudo o que eles têm a oferecer. Na lista: contato com a natureza (o que inclui praia, cachoeira, trilhas), piscina, atividades esportivas (vôlei, futebol, corrida, caminhada, voo de asa delta), barzinhos, festas ao ar livre. Para tudo isso, usa-se peças mais leves, práticas, descontraídas. Come-se melhor e menos alimentos pesados e gordurosos.


Porém, é preciso esclarecer alguns pontos. Embora nós, latinos em geral, sejamos associados à imagem de um povo alegre, afetuoso e simpático, nem todos se comportam igual e os que se encaixam nesse perfil muito provavelmente não saem distribuindo sorrisos 24 horas.


Calor tem lado ruim?


Feito um esclarecimento breve sobre generalizações, em parte reforçados dentro e fora do país por campanhas e pôsteres ofensivos sobre cerveja, turismo e Carnaval, fica compreensível apontar o que realmente compete ao calor em se tratando de influências negativas, desvantagens. Mas é tudo muito variável, individual, subjetivo. O que pode ocorrer com alguém ou ser considerado ruim, nem sempre vale como unanimidade.


Pode depender da intensidade do calor e adaptação, aponta Leide Batista, psicóloga pela Faculdade Castro Alves e do Hospital da Cidade, em Salvador (BA). Para alguns, ele cursa com irritabilidade, mau humor, desânimo. "Esporadicamente, é natural, faz parte da vulnerabilidade humana, não é todos os dias que estamos bem. Mas a frequência, se for recorrente, indica necessidade de cuidados psicológicos", diz. Assim como os desconfortos físicos, não se trata de "frescura".


O organismo indica quando algo não vai bem e esses sinais correspondem a mecanismos de defesa. Por isso, fique atento à somatória de dores de cabeça, insônia, falta de concentração, suor excessivo, exaustão, estresse, pois são indícios de alerta. Pessoas são programadas para funcionar a uma média de 36,5°C. Exceder isso é perigoso e, além de 40°C, os riscos são potencialmente fatais. Fora que calor extremo piora transtornos, demências e até autoestima.


Quem se beneficia mais


Quando equilibrada, a quentura, por outro lado, tem muitas vantagens. Além das já citadas, pode ser muito bem-vinda aos tímidos, bem como àqueles com depressão ou em recuperação desse transtorno. No frio eles sofrem bem mais, afirma Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo): "Para sair da cama, se entrosar, iniciar atividades. O corpo se fecha, encolhe e potencializa as dificuldades".


Vasconcellos continua que devido à falta de luminosidade e calor, o corpo consome a energia que o manteria estimulado, bem-disposto para se manter aquecido e os órgãos operando. "Daí que muitos se deprimem. Sobretudo gente que sempre esteve acostumada a um clima quente, ensolarado e se mudou para um lugar extremamente frio". No Hemisfério Norte, outono e inverno podem fazer a tristeza perdurar até meio ano.


Por lá, quando isso acontece, a condição recebe o nome de transtorno afetivo sazonal e exige tratamento com lâmpadas especiais, terapeuta e suplementação. Por aqui, se atentem os que passam tempo demais em ambientes fechados, principalmente por conta do trabalho. A falta de sol ainda leva a déficits no nível de neurotransmissores, como serotonina, sonolência e perda de libido. Então, fica a dica: aproveitem mais o verão e o que oferece este país tropical.