• Imprensa

Por que tantos homens ofendem ou menosprezam mulheres que os incomodam?

Hostilidades do tipo têm como objetivo não só difamar a mulher, mas reforçar uma suposta “superioridade” do ofensor.


Publicado em UOL/Universa-Relacionamento,23.02.20

Colaboração: Heloísa Noronha


Vagabunda, cretina, feminazi, ridícula, canhão, fresca, chatinha, nojenta… A lista de ofensas destinadas às mulheres por homens incomodados por atitudes de rejeição ou simplesmente pela presença delas é vasta. E, na maior parte dos casos, se referem à aparência física ou ao comportamento/desempenho sexual femininos. Hostilidades do tipo têm como objetivo não só difamar a mulher, mas reforçar uma suposta “superioridade” do ofensor.


Um exemplo recente aconteceu no Big Brother Brasil, quando o recém-eliminado Lucas Galina afirmou para os colegas, entre risos, que “só não comeu porque não estava com fome”, referindo-se a Mari Gonzalez. A ex-panicat (que é muito bem casada com o ex-BBB Jonas Sulzbach) e as outras sisters foram alvo desde o início do programa de outros comentários pejorativos e machistas.


Segundo Marina Franco, essa insegurança pode aparecer em diversos contextos. A primeira é quando a mulher diz não a um apelo de cunho sexual – o homem pode ter sua virilidade questionada nesse momento e pensar “será que não sou bom suficiente?”. Outra situação recorrente de revolta é quando são questionados em relação a condutas machistas ou opressoras. E, ainda, quando a parceira tenta colocar um ponto final num relacionamento pontuado por abusos psicológicos ou de cunho moral. “O fato é que a causa raiz desse tipo de comportamento está ligada à uma insegurança de um homem que ‘não aceita ficar por baixo’. Ele parte para a agressão verbal para tentar desestabilizar a mulher que se impõe e se valoriza. Para manter a imagem de ‘bom guerreiro’, lança mão de um golpe baixo”, comenta a psicóloga.


Na opinião de Ellen Moraes Senra, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, do Rio de Janeiro (RJ), a baixa autoestima é outro fator por trás desse comportamento hostil. “A sexualidade feminina é sempre o ponto em que esses homens costumam pegar porque é uma maneira de tentar ferir a autoestima delas da mesma maneira com que eles se sentem feridos com a rejeição”, explica. Ser escroto, portanto, é mais fácil do que aceitar um fora ou o fato de que a mulher não tá nem aí para eles.


O menosprezo pelo sexo feminino pode surgir na infância, soando como uma reprodução do que foi aprendido com o relacionamento entre os pais, ou ter sido adquirido na formação da sexualidade e dos relacionamentos interpessoais de maneira disfuncional. A psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observa que muitos desses homens apresentam traços de transtorno de personalidade. “São narcisistas, antissociais, borderlines… Em geral, não aceitam o fato de que não são desejados, já que se julgam o máximo. Daí invertem a situação, manipulando as circunstâncias e detonando as mulheres que não lhes dão bola”, diz.


A misoginia também é uma característica que não deve ser subestimada. Porém, é importante frisar, conforme Marina Franco, que nem todos os casos podem ser explicados como misóginos. “Há homens que cresceram acreditando que o conceito de amor é ‘aquele que tudo suporta’ e que a mulher que não quer mais ficar com ele é uma ‘vadia’. Ou seja, ele se refere a ela de forma agressiva não por ser mulher, mas por não compartilharem a mesma visão patológica do amor. Nesse caso, seria mais uma expressão de revolta e imaturidade por ter sido abandonado”, conta.


A sexualidade feminina x a masculina e como elas são vividas ainda é um dos campos onde existe a maior discrepância de pontos de vista. “Isso é comprovado quando tomamos conhecimento de pesquisas que identificam que os xingamentos que mais provocam e chateiam as mulheres são os de cunho sexual. Aproveitando-se da situação de domínio cultural intenso que ainda permeia a vivência da sexualidade da mulher, os homens utilizam-se de palavras como ‘vagabunda’, pois sabem que este ponto é um desestabilizador quase garantido para as mulheres. O que se torna, é claro um ato deliberadamente agressivo”, comenta Marina Franco.


Para Ellen, o melhor a fazer é ignorar. “Um homem desses não vale o desgaste, até porque se ele deu em cima da mulher antes de ofendê-la, é porque ele não pensa realmente assim. E mais: mulher nenhuma é definida pelo que dizem dela. Portanto, entenda que esses homens são frágeis em sua masculinidade e verdadeiramente dignos de serem completamente ignorados”, reforça.

+55 [11] 97416-1008
Rua Cardoso de Almeida, 788 – Conj. 53
Perdizes - São Paulo, SP - 05013-001

Marina Vasconcellos

Psicologia - Perdizes, São Paulo/SP
  • facebook-marina.vasconcellos.psicoterapeuta
  • linkedin-marina-vasconcellos