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Grana e sexo são as principais causas que chegam na terapia

Publicado no 24 Horas News, 02.12.12

Viver a dois é tentar resolver problemas que não existiam quando se estava sozinho. As brigas são naturais, pois elas estimulam uma mudança e facilitam o equilibro das diferenças. Mas chega uma hora em que um começa a incomodar o outro e qualquer atitude provoca rusgas. A conversa, antes antídoto para amenizar brigas, já não funciona mais. Quando acertar o momento ideal para procurar uma terapia? A psicóloga e terapeuta de casais, Marina Vasconcellos, explica a seguir.

O especialista busca facilitar o diálogo ao trazer à tona o “não dito” que passa a ser dito nas sessões e será devidamente trabalhado e elaborado. Em casos onde o casal passa por uma situação de trauma intenso como, por exemplo, o luto pela morte inesperada de um filho, muitas vezes a relação sofre um abalo grande que precisa da ajuda de um terapeuta.

Em função da dificuldade em se manter um diálogo, e como as insatisfações não são expostas e faladas elas acabam sendo guardadas formando a já conhecida bola de neve de pequenas coisas que vão se juntando. “O objetivo de uma terapia de casal é resolver questões que o casal não consegue lidar por conta própria, mas que, com a ajuda de uma terceira pessoa, enfrentam e são convidados a encontrar uma resolução”, ressalta Marina.

“A hora é quando um dos cônjuges (ou ambos) percebe que algo está ruim, mas não consegue resolver o problema com o parceiro. Tenta-se o diálogo, mas ele não acontece. Há uma insatisfação na relação que não pode ser exposta por incapacidade de lidar com a questão”, explica a psicóloga.

Não há garantia de que através dessa terapia o casal consiga reverter uma relação já há muito desgastada, cheia de mágoas e raivas não elaboradas. Num caso assim, avalia a psicóloga, o terapeuta pode trabalhar até a possibilidade de uma separação o mais amigável possível. “Aqui o terapeuta ajuda o casal a entender os motivos que os levaram a se separar e também auxilia no diálogo tão necessário, mas difícil nessa fase de tensão, frustração e luto por uma relação que não resistiu às dificuldades”, destaca Marina.

Acertou quem achava que os homens têm mais dificuldade em pedir essa ajuda do que elas. Segundo a psicóloga, as mulheres têm mais facilidade em expressar seus sentimentos e conversar sobre o que a aflige. “Os homens permanecem mais tempo na insatisfação sem se darem conta de que o melhor seria tentar algo diferente”, explica a terapeuta.

Segundo Marina, as questões são sexuais (a diferença de ritmo, desejo e necessidade sexual, por exemplo), de gênero (questões ligadas ao feminino e ao masculino que são confundidas com coisas pessoais e, na verdade, boa parte das pessoas apresenta o mesmo tipo de comportamento) e financeiras (a dificuldade de um ou de ambos em lidar com o dinheiro interferindo diretamente no equilíbrio financeiro do casal, o que acarreta brigas e situações delicadas).

Outras questões levadas à terapia: o casal apresenta prioridades diferentes no que diz respeito ao investimento financeiro, em atividades de lazer e trabalho e em divergências na educação dos filhos. Além disso, ciúmes, traição, o desequilíbrio emocional entre os parceiros (um se desenvolve emocionalmente enquanto o outro permanece no mesmo patamar dificultando a convivência) e a intolerância com as diferenças de atitudes entre eles, o que gera uma tentativa constante de mudar o outro, são outras razões.

A infidelidade conjugal leva muitos casais ao consultório. Ela acaba sendo o estopim para que muitos procurem a terapia como um último recurso para ficarem juntos. É um bom prognóstico quando procuram ajuda para entender o porquê da traição ou da “intenção” de trair (nem sempre se chega às vias de fato, mas descobre-se algo através da internet, de mensagens no celular, o que é suficiente para gerar uma crise enorme no casal). Mas é comum que, após a tormenta gerada por uma traição, o casal se refaça, mude o que não estava bom e volte a se apaixonar como um dia já o foram.

“A traição muitas vezes acontece porque o casamento está na mesmice, o sexo já não satisfaz ou é quase inexistente e a relação está sofrendo com a rotina desgastante. É necessário um recontrato entre o casal, muito diálogo, tolerância, maturidade e bom senso para que o casamento sobreviva a um evento como este”, recomenda Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta de casais.

Não há um tempo determinado para a terapia. Tudo vai depender da necessidade do casal no momento. Há casos pontuais que chegam com uma questão bem definida a ser trabalhada e, quando ela se resolve, ambos seguem por conta própria. Outros chegam por um motivo e descobrem vários outros conflitos, transformando o trabalho em uma verdadeira “lavagem de roupa suja” onde questões encobertas são expostas e mágoas trazidas à tona. “Quando tudo pode ser falado e resolvido, aí sim o casal consegue se redescobrir e mudar o que já não os satisfaz mais”, explica a terapeuta.

O ideal é procurar o diálogo sempre. Esta é a principal dica. Quando se deixam acumular coisas, por não ser ditas com o tempo, o relacionamento sofrerá as consequências. Muitas vezes são tantas as mágoas guardadas que uma reconstrução já não é mais possível.

Outro cuidado é procurar colocar-se no lugar do outro para entender suas necessidades. E mais: numa relação existe o eu, o tu e o nós, ou seja, é preciso preservar a individualidade dos parceiros e construir um “nós” onde ambos compartilharão vivências sem que cada um deixe de cuidar de si para evitar que, com o tempo, acabem se anulando em função do outro.