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Como saber se falar sozinho é por nota mental ou transtorno psicológico?

Publicado em UOL/Viva Bem, 30.05.22 Por: Marcelo Testoni


Você fala sozinho ou conhece alguém que faça isso? Geralmente esse tipo de comportamento, bastante comum entre as pessoas, manifesta-se quando queremos nos concentrar em algo e orientar nossas próprias ações, principalmente quando acompanhado de voz alta/audível ou movimentos de boca. Seja para relembrar a marca de um produto ou data, ou saber como realizar algum passo a passo.


Experimentos científicos sobre esse assunto não faltam e por meio deles já foi demonstrado, por exemplo, que ficar repetindo o nome de alguma coisa durante sua busca funciona, quando se trata de algo familiar. "Diante de tarefas esportivas ou até intelectuais, nada impede esse recurso, se ele ajudar num rendimento motor ou cognitivo maior. Por vezes, pode alimentar a vontade ou iniciativa", explica Ary Ornellas, psiquiatra do Hospital Aliança, em Salvador (BA).


Porém, nem sempre falar sozinho possui alguma serventia, ou representa algum benefício. De acordo com um estudo publicado no periódico Quarterly Journal of Experimental Psychology por pesquisadores das Universidades de Wisconsin-Madison e Pensilvânia (EUA), se você procura por algo que não faz ideia de como seja, repetir ele para si pode não surtir nenhum efeito ou até atrapalhar sua procura. Fora que falar sozinho às vezes é sinal de alguma patologia mental.


Quando é normal e quando não é

Por mais que pareça estranho, falar sozinho, na maioria das vezes, nada mais é que uma estratégia natural, afirma Juliana Casqueiro, psiquiatra do Hospital São Rafael, da Rede D'Or, também em Salvador. A fala pode ser acionada inconscientemente para estabelecer prioridades mentais, dar ordem às informações, reduzir seus excessos e manter a centralidade, evitando dispersões. Ao verbalizar o que sente e escutar a si mesmo, o emocional também se acalma, autorregula.


Nesses casos, a pessoa costuma ter a percepção de que está falando sozinha, como se conversasse consigo mesma. Agora, como sintoma de doença, esse comportamento está mais para uma conversa com alguém, sem notar. "Pode surgir em decorrência de esquizofrenia, em que se diz ouvir vozes e responde a elas. Também transtornos de humor, psicoses, bipolaridade, depressão", continua a médica. Não envolvendo a mente, ainda tem a ver com problemas de surdez.


Ansiedade, estresse, fobia social, com ou sem transtornos, também podem cursar com monólogos, os quais os médicos preferem chamar de solilóquios. Isolado e esporádico, esse fenômeno não representa um problema, às vezes até se constitui um costume, como o de murmurar durante um momento de solidão, ou enquanto se lê ou assiste à televisão. Anormal seria mais um diálogo em total desacordo com a realidade, em tom tenso, ameaçador e com gestos.


Falar sozinho muda conforme a fase

Crianças pequenas falam e riem sozinhas por diversos motivos. De acordo com Eduardo Perin, psiquiatra pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), isso acontece para externalizar suas relações, o que sentem e aprendem, ou ainda por brincadeiras lúdicas, podendo envolver, ou não, amigos imaginários. Carecem de atenção redobrada se falam sozinhas principalmente quando agem errado e não admitem, transferindo a culpa para "alguém", ou passam muito tempo isoladas.


Já adolescentes e adultos jovens podem falar sozinhos por quererem afirmar para si mesmos suas qualidades e melhorar a autoestima, algo que funciona bem diante de um espelho, que ainda serve como "ouvinte" para quem não se sente confortável em dividir as emoções com os outros. "Há quem também recorra ao exercício de autoescuta quando tem de tomar decisões ou resolver problemas de forma consciente, isso faz raciocinar", diz Perin.


Agora, o próprio envelhecimento corresponde a um fator para o desenvolvimento do hábito de falar sozinho, que pode ter relação, ou não, com demências. No que compete às falhas de memória esperadas, começam perto dos 30 anos e aumentam gradativamente a cada década, por conta da morte dos neurônios. Com isso, é comum a pessoa ficar desatenta, um pouco lentificada no pensar e repetir palavras, nomes, por sentir certa dificuldade em lembrá-los.


Saiba quando é preciso investigar e tratar

Diálogos internos começam a representar preocupações quando causam ou denotam sofrimentos e atrapalham relações e o desenvolvimento de atividades. "Especialmente se a pessoa não percebe ou não consegue conter seus impulsos na frente dos outros ou conversa com ela própria como se estivesse com mais alguém e diz ouvir vozes, ordenanças", reforça Marina Vasconcelos, psicóloga pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).


Nessas situações, é necessário que seja ajudada e conduzida a um neurologista ou psiquiatra e para casos que envolvam angústias, tensões, pensamentos excessivos, o acompanhamento do psicólogo também é importante. A escuta de um especialista leva o sujeito a ter reflexões e compreender o que lhe inquieta tanto a ponto de fazê-lo conversar consigo mesmo. Pode ser por dificuldade de socialização e autoaceitação, traumas, violências, mortes de entes queridos.


Em se tratando de crianças, os pais ou cuidadores não devem coibi-las nem suas fantasias com cobranças, castigos. Mas se já com idade para distinguir subjetividade e realidade, o filho continuar falando sozinho, ou demonstrar que escuta o que ninguém mais ouve, de novo, cabe consultar um médico. Nos idosos, sintomas de Alzheimer no estágio inicial incluem confusão, esquecimento, variação de humor, problemas na fala e devem ser reportados logo ao geriatra.