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'Casamento às Cegas': o que os terapeutas fariam para melhorar o programa?

Publicado no portal UOL - VivaBem, 19.03.24 Por: Isabella Abreu


'Casamento às Cegas Brasil': Karen e Valmir ficaram casados por duas semanas - Imagem: Reprodução/Netflix


Desde sua estreia na Netflix, o programa "Casamento às Cegas" chama a atenção do público com a premissa intrigante de casar pessoas que nunca se viram antes. As três temporadas brasileiras, por exemplo, já resultaram em 15 casais, um bebê, alguns divórcios e muitas horas de entretenimento para os fãs de reality shows. A quarta temporada está oficialmente confirmada para 2024 e conta com uma novidade: desta vez, todos os participantes são separados, divorciados ou já tiveram um noivado que não se oficializou.


Embora seja sucesso de audiência, quando analisada a partir de uma perspectiva psicológica, especialistas afirmam que a série apresenta algumas questões problemáticas. Para Elídio Almeida, psicólogo formado pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e especialista em terapia de casal e relacionamentos, o conceito de unir pessoas sem que elas tenham a oportunidade de se conhecer previamente pode ser desastroso. Isso porque um dos pilares de um relacionamento bem-sucedido passa pelo conhecimento amplo e pela convivência intensa entre o casal.


"Poder conhecer o outro profundamente, compreendendo as diferenças entre si e se certificando de que o saldo é positivo e favorável ao desenvolvimento de um relacionamento, é essencial. No entanto, isso requer convivência em diversas situações e contextos e, obviamente, demanda tempo", diz Almeida.


É por isso que frequentemente nos deparamos com casais que fazem um breve checklist daquilo que consideram relevante naquele momento e já avançam para o próximo passo de casar ou morar juntos, pulando várias etapas fundamentais à sobrevivência e à saúde do relacionamento.


"Como consequência, há a falta de compreensão das necessidades do parceiro ou a descoberta de diferenças irreconciliáveis apenas após o casamento. Também é comum que pessoas que construíram seus relacionamentos de forma 'apressada' convivam com a falta de confiança, ciúmes e conflitos, resultantes da ausência de uma base sólida no início do relacionamento", afirma o psicólogo.


Os participantes da 6ª temporada de "Casamento às Cegas EUA" - Imagem: Divulgação/Netflix


Apaixonar-se por outra pessoa sem conhecê-la pessoalmente pode realmente ser possível. Essa possibilidade é respaldada por várias teorias e pesquisas que apoiam a ideia de que o amor pode florescer na ausência de contato visual inicial, enfatizando a intimidade emocional, a compatibilidade de valores e a comunicação aberta. No entanto, a psicóloga Renata de Azevedo, especialista em terapia de casal e família pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ressalta que a atração física desempenha um papel importante no relacionamento amoroso.


Um casal que tem muito em comum, mas não possui química e tem pouca atração física, pode até querer ficar junto, já que se dão muito bem, mas a chance de o relacionamento não perdurar é grande, pois não se conectam fisicamente.
Renata de Azevedo, psicóloga

Outro ponto levantado por Marina Vasconcellos, terapeuta familiar pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), é que o fato de as pessoas saberem que estão sendo filmadas e observadas grande parte do tempo inviabiliza o agir espontâneo, natural.


Tudo que é exposto na TV pode atingir proporções mundiais, e aqueles que ali se exibem provavelmente querem os olhares das pessoas, a aprovação delas, a torcida, a fama, e certamente procuram passar uma boa imagem de si para serem bem avaliados. Será que são assim mesmo em suas 'vidas normais'?
Marina Vasconcellos, terapeuta familiar.

Assim, há muitas maneiras pelas quais o programa pode melhorar. Thiago de Almeida, pesquisador do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e autor de vários livros sobre relacionamentos, listou algumas mudanças que faria se fosse o produtor de "Casamento às Cegas". "As mudanças não teriam apenas como objetivo melhorar a experiência dos participantes, mas também fornecer ao público conhecimentos aplicáveis sobre relações saudáveis, comunicação eficaz e crescimento pessoal, fazendo do programa uma plataforma tanto de entretenimento quanto de aprendizado emocional e relacional", explica. Confira:


Inclusão de sessões de psicoterapia

Sessões regulares de psicoterapia para os participantes, individualmente e como casais. Essas sessões seriam conduzidas por psicólogos clínicos experientes, oferecendo um espaço seguro para os participantes explorarem suas emoções, medos, vulnerabilidades, expectativas e padrões de relacionamento.


Desafios fundamentados em teorias de relacionamento

Desafios semanais fundamentados em teorias psicológicas e pesquisas sobre relacionamentos, como exercícios de construção de confiança inspirados pela teoria do apego de John Bowlby ou atividades que promovam a inteligência emocional e a comunicação assertiva.


"Os desafios seriam projetados para não só testar a força das conexões estabelecidas, mas também para educar os participantes e o público sobre componentes chave de relacionamentos bem-sucedidos. Exemplo: um desafio poderia envolver os casais planejando um futuro juntos com recursos limitados, como definir um orçamento familiar", sugere Almeida.


Workshops sobre amor e relacionamentos

Organização de palestras educativas sobre diferentes aspectos do amor e dos relacionamentos, liderados por especialistas em psicologia de casais, sexólogos e conselheiros matrimoniais. Esses workshops poderiam cobrir temas como a diferença entre amor e paixão, a importância da autonomia em um relacionamento, técnicas de resolução de conflitos e a manutenção da paixão e intimidade a longo prazo.


Feedback construtivo do público e de especialistas

Por fim, uma dinâmica onde os participantes recebem feedback construtivo tanto do público quanto de especialistas em relacionamentos ao final de cada episódio. "O feedback seria cuidadosamente moderado para garantir que seja produtivo e centrado no crescimento. A ideia seria criar um diálogo aberto sobre os comportamentos e escolhas dos participantes, oferecendo perspectivas diversas e aprendizados que possam beneficiar tanto os participantes quanto os espectadores", diz.



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