• Imprensa

Ódio à 1ª vista vira amor? Há algo real no clichê das comédias românticas

Publicado no portal UOL - Universa, 07.03.21

Por: Heloísa Noronha



"Como Perder um Homem em Dez Dias", "A Verdade Nua e Crua" e "Alguém tem que Ceder" são apenas três exemplos de comédias românticas com um enredo clássico: a dupla de protagonistas começa a história não indo com a cara um do outro mas conforme a trama avança se dão conta de que estão perdidamente apaixonados um pelo outro.


Não se sabe bem como esse enredo surgiu - provavelmente um dos pioneiros a abordá-lo foi o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) na comédia "A Megera Domada", de 1594 -, mas o fato é que, de tão usado, se converteu em um clichê. Que, é bom ressaltar, funciona de acordo com a qualidade da obra. Na vida real, porém, esse tipo de narrativa também costuma fazer sentido. É claro que não da mesma forma cheia de idas e vindas e até tramoias da ficção, mas, há explicações para que um ódio violento à primeira vista ou uma antipatia fulminante se transforme, sim, em amor.


Segundo a segundo a psicóloga clínica e psicanalista Priscila Gasparini Fernandes, de São Paulo (SP), a relação entre amor e ódio é dada pela ambivalência emocional, um conflito de sentimentos em relação à outra pessoa. "Se existe algo que ela odeie no outro, é porque se identifica com o que está odiando. Na verdade, o ódio é por algo que é dela", comenta. "Às vezes, o problema nem está no outro.


Trata-se de uma projeção: transfiro para ele algo que incomoda em mim e que não quero lidar", diz Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar e de casal pela Unifesp. Quando as pessoas se dão conta dessa transferência, conforme Priscila, isso é resolvido e consequentemente existe uma observação maior, uma admiração e muitas vezes surge um sentimento de amor.


"Às vezes te odeio por quase um segundo depois te amo mais"

Em outros casos, não é equivocado apelar para mais um lugar-comum: amor e ódio são faces da mesma moeda. Apesar de serem sentimentos opostos, não há exclusão.


"O ódio constante por alguém pode esconder uma admiração inconsciente pelo outro, uma identificação que não é percebida porque foi reprimida. Todo o desprezo e raiva iniciais se dissipam quando o sentimento de admiração vem à tona e há o seu reconhecimento. Apesar das pessoas estranharem inicialmente, por esse motivo é possível o ódio se transformar em amor", explica a psicóloga clínica Joselene L. Alvim, especialista em neuropsicologia.


Sentimentos conflitantes, de acordo com Joselene, são comuns em qualquer tipo de relação e sentir tesão, atração física por alguém que desperta raiva é um deles. "Aquela pessoa odiada tem também coisas que admiramos ou ainda coisas que temos em nós, mas que conscientemente não as percebemos. Geralmente é difícil lidar com tal emoção ambivalente, daí surgem as defesas", fala a psicóloga.


É melhor não resistir e se entregar


E surge, ainda, a chamada tensão sexual, as brigas, as picuinhas. A necessidade de criticar constantemente, de provocar, de repelir, pode esconder o encanto e a admiração. O tesão também é resultado disso, mas não é um processo consciente.


À medida que os dois vão se conhecendo melhor, porém, as defesas vão diminuindo e um passa a ouvir e enxergar melhor o outro, de fato. Na opinião de Priscila, com o ódio inicial os envolvidos podem aprender a analisar melhor a pessoa, sem julgamentos iniciais, que geralmente não são verdadeiros.


"A partir disso, é possível dar mais atenção e analisar os sentimentos que surgem em relação ao outro, além de desenvolver uma inteligência emocional para poder diferenciar o que realmente é significativo. Afinal de contas, a falta de habilidade para entender e refletir sobre as próprias emoções é um fator que impede muitas pessoas de se relacionarem de maneira saudável", pontua.

+55 [11] 97416-1008
Rua Cardoso de Almeida, 788 – Conj. 53
Perdizes - São Paulo, SP - 05013-001

Marina Vasconcellos

Psicologia - Perdizes, São Paulo/SP
  • facebook-marina.vasconcellos.psicoterapeuta
  • linkedin-marina-vasconcellos